
Raul Astolfo Marques nasceu em São Luís (MA) em 1876 e morreu na mesma cidade, em 1918. Filho de uma mulher negra livre, atuou como jornalista e tradutor, tendo colaborado com contos, folhetins e ensaios para diversos periódicos maranhenses. Iniciou sua vida profissional como contínuo da Biblioteca Pública do Maranhão e mais tarde fundou, junto a Antônio Lobo, a Oficina dos Novos, que acabaria por fornecer muitos membros à Academia Maranhense de Letras, entre eles o próprio Astolfo Marques. É ainda autor de um romance, A nova aurora (1913)
Organizada pelo professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap Matheus Gato de Jesus, a antologia do maranhense Astolfo Marques é um achado literário de grande importância, que permite cotejar momentos centrais da história nacional do ponto de vista de um negro liberto que testemunhou a Abolição e a proclamação da República.
Originalmente publicados na imprensa maranhense no final do século 19 e início do 20, os textos de Astolfo Marques são uma saborosa crônica literária de seu tempo, além de fonte histórica preciosa das dinâmicas sociais do pós-Abolição na periferia do Brasil moderno. Alguns contos mostram o tempo da escravidão; outros nos revelam o pós-Abolição e alguns retratam a vida depois do golpe republicano, conduzido por militares e latifundiários escravocratas. É em meio ao cenário do cotidiano e da cultura popular maranhenses, com festas de igreja, reisados, ritos de quaresma, folganças carnavalescas, danças folclóricas, tambor de crioula e bumba meu boi que Astolfo Marques faz um flagrante admirável dos costumes e da própria linguagem popular da época.
O livro conta com um ensaio de apresentação de Matheus Gato e prefácio do escritor Paulo Lins, autor do consagrado romance Cidade de Deus.